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Giuseppe Scapinelli

arquiteto, decorador e designer

Italiano de formação e brasileiro por escolha, integrou a geração de profissionais europeus que chegaram a São Paulo no período do pós-guerra e participaram da transformação dos interiores residenciais da cidade. Sua obra, porém, não se limitou à transferência de referências estrangeiras: nasceu do encontro entre a tradição projetual italiana, a qualidade da marcenaria praticada no Brasil e uma compreensão muito particular do conforto, da proporção e da elegância.

 

Nascido em Modena, na Itália, Scapinelli formou-se em arquitetura antes de se mudar para o Brasil, em 1948. Estabeleceu-se em São Paulo, onde inicialmente colaborou com Francesco Matarazzo e, pouco depois, passou a desenvolver projetos de arquitetura, decoração e mobiliário de maneira independente. Em 1950, organizou seu próprio escritório, iniciando o período mais significativo de sua produção.

Arquitetura, interiores e mobiliário

Giesse, Santa Helena, Le Rideau e Margutta

algumas publicações

Poltrona Design anos 50 Giuseppe Scapinelli em caviuna maciça acervo da Lora Ronco Galeria

Scapinelli desenvolveu sua carreira em um momento de profundas mudanças na sociedade paulistana. A expansão industrial, o crescimento urbano e o surgimento de novas formas de morar criavam uma demanda por residências modernas, mas ainda associadas ao requinte, ao conforto e à representação social.

Nesse ambiente, Scapinelli atuava sobretudo como arquiteto-decorador. Seu trabalho não começava necessariamente pela criação de um móvel isolado, mas pela concepção do ambiente como um conjunto. Distribuição espacial, revestimentos, tapetes, cortinas, iluminação, obras de arte e mobiliário eram pensados de maneira articulada.

Essa abordagem explica a variedade encontrada em sua produção. Muitas peças foram concebidas especialmente para determinadas residências, adequando-se às dimensões, à arquitetura e ao perfil de cada cliente. Em lugar de desenvolver apenas linhas padronizadas para fabricação em grande escala, Scapinelli explorava soluções específicas, frequentemente executadas em pequenas quantidades por marceneiros e artesãos especializados.

Seu nome tornou-se conhecido entre famílias ligadas à elite industrial e cultural de São Paulo. Ao longo dos anos 1950 e 1960, projetou salas de estar, dormitórios, salas de jantar, escritórios, bares e outros ambientes domésticos, criando para eles cadeiras, mesas, poltronas, sofás, camas, aparadores, estantes e objetos complementares.

A atuação de Scapinelli também assumiu uma dimensão empresarial. Ele esteve à frente da Fábrica de Móveis Giesse e da Fábrica de Tapetes Santa Helena, iniciativas que lhe permitiram acompanhar mais diretamente a execução dos elementos utilizados em seus projetos.

Manteve ainda os estabelecimentos Le Rideau e Margutta. Mais do que um ponto de exposição e comercialização, a Margutta funcionava como seu ateliê e como um espaço de convivência entre arquitetos, artistas e intelectuais, muitos deles europeus radicados em São Paulo. Esse ambiente favorecia a circulação de referências internacionais, ao mesmo tempo que aproximava Scapinelli dos materiais, dos artesãos e das condições produtivas encontradas no Brasil.

Sua relação com o público não se restringiu aos projetos particulares. Durante a década de 1950, assinou na revista Casa e Jardim a coluna “Scapinelli responde”, na qual comentava questões relacionadas à decoração e à organização dos interiores. A participação na revista ajudou a difundir suas ideias sobre o morar moderno e revela como ele compreendia a decoração como uma atividade que reunia conhecimento técnico, sensibilidade artística e atenção à vida cotidiana.

Uma linguagem própria

O mobiliário de Giuseppe Scapinelli é reconhecido por uma combinação incomum de leveza visual, movimento e precisão construtiva. Suas peças apresentam silhuetas alongadas, apoios estreitos, transições contínuas entre estrutura e superfície e curvas que parecem conduzir o olhar ao redor do móvel.

Mesmo quando partia de formas geométricas elementares, Scapinelli evitava soluções excessivamente rígidas. Pernas inclinadas ou afiladas, braços desenhados como extensões da estrutura, encostos arqueados e tampos de contornos livres conferem às suas criações uma sensação de dinamismo. Em muitos casos, a massa do móvel é visualmente afastada do chão, criando uma aparência mais aérea e acentuando a elegância de suas proporções.

Essa característica o distingue de parte da produção modernista orientada por estruturas ortogonais, superfícies planas ou por uma expressão mais severamente racionalista. Scapinelli desenvolveu uma modernidade menos austera, na qual o rigor do desenho convive com a sensualidade das formas.

Seu trabalho não deve, entretanto, ser entendido apenas como decorativo. Por trás da fluidez de suas linhas existe um controle cuidadoso das proporções, dos encaixes e da relação entre as diferentes partes do móvel. A delicadeza aparente depende de uma execução precisa e de um domínio profundo da construção em madeira.

A madeira como matéria de expressão

Caviúna, jacarandá e outras madeiras empregadas no mobiliário brasileiro do período assumiram papel central na produção de Scapinelli. Ele explorava a resistência, a coloração, os desenhos naturais e as possibilidades de modelagem de cada espécie, evitando tratar a madeira como simples revestimento.

Em suas peças, pés, braços, travessas e molduras frequentemente recebem perfis arredondados, mudanças graduais de espessura e recortes que revelam um trabalho próximo ao da escultura. A estrutura não é escondida: torna-se parte essencial da composição.

A madeira também aparece associada a vidro, palhinha, tecidos, mármore, bronze e outros metais. Essas combinações introduzem contrastes entre transparência e densidade, superfícies frias e quentes, brilho e textura. O resultado é um mobiliário sofisticado, mas raramente excessivo, no qual cada material participa da definição formal do conjunto.

 

A formação multidisciplinar de Scapinelli contribuiu para essa liberdade. Além de arquiteto e designer, dedicou-se à pintura, à cerâmica e à escultura. Sua familiaridade com diferentes linguagens artísticas pode ser percebida na maneira como pensava volumes, superfícies e materiais, aproximando determinados móveis de objetos escultóricos sem comprometer sua função.

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Entre a tradição italiana e o Brasil moderno

A obra de Scapinelli estabelece uma ponte entre universos distintos. De um lado, sua formação italiana aparece no cuidado com o desenho, na busca pela harmonia e em certa permanência de valores clássicos. De outro, sua produção está profundamente ligada à São Paulo moderna, às madeiras brasileiras, aos interiores concebidos para a sociedade local e ao trabalho de artesãos que atuavam na cidade.

Essa dupla referência permitiu que desenvolvesse uma linguagem independente. Seus móveis não reproduzem simplesmente modelos italianos, assim como não se confundem com a produção de outros designers brasileiros do período. Scapinelli incorporou influências internacionais e experiências locais para construir um repertório reconhecível, marcado pela continuidade das linhas, pelo refinamento dos detalhes e por uma compreensão sensível da presença do móvel no espaço.

Essa identidade aparece tanto em peças de pequenas dimensões, como mesas laterais e carrinhos de chá, quanto em grandes aparadores, mesas de jantar, sofás e camas. Mesmo diante da diversidade de tipologias, permanece uma coerência de pensamento: a estrutura é desenhada para parecer leve, a matéria é valorizada e o objeto estabelece uma relação direta com a arquitetura ao seu redor.

Pesquisa e redescoberta

Durante décadas, parte importante da produção de Scapinelli permaneceu dispersa em residências particulares. A criação sob encomenda, a existência de variações entre peças semelhantes e a ausência de uma catalogação industrial abrangente tornaram mais complexa a identificação de determinados modelos.

A recuperação de sua trajetória ganhou novo impulso com o trabalho de pesquisadores, colecionadores, galerias e instituições dedicadas ao mobiliário moderno brasileiro. Em 2015, Sérgio Campos publicou o livro Giuseppe Scapinelli 1950: O Designer da Emoção, pela Artemobília. A publicação foi acompanhada por uma exposição que reuniu móveis, pinturas, esculturas e cerâmicas, contribuindo para apresentar a amplitude de sua produção para além das peças mais conhecidas.

Alguns de seus desenhos também passaram a integrar o trabalho de pesquisa e reedição da ETEL. A retomada desses projetos, realizada a partir do estudo das peças originais, ampliou a circulação internacional de sua obra e permitiu que modelos desenvolvidos nos anos 1950 fossem novamente produzidos dentro de parâmetros controlados.

Em 2023, a exposição “Pancetti e Scapinelli”, realizada na Casa Zalszupin e organizada em parceria pela ETEL e pela Almeida & Dale, aproximou o mobiliário do designer da pintura de José Pancetti. A mostra enfatizou a presença italiana na formação da cultura moderna brasileira e as relações entre lirismo, síntese formal e depuração encontradas na obra dos dois autores.

Em 2025, a Galeria Teo realizou “Scapinelli e seus esbeltos elementos”, com curadoria do arquiteto e escritor Francesco Perrotta-Bosch. A exposição reuniu mais de setenta móveis produzidos principalmente nas décadas de 1950 e 1960, acompanhados por fotografias e publicações históricas.

Organizada a partir de uma extensa pesquisa documental, a mostra apresentou diferentes núcleos tipológicos e permitiu observar a amplitude das soluções concebidas pelo designer. Sofás, espreguiçadeiras, banquetas, mesas, cadeiras e outros objetos evidenciaram não apenas a variedade de sua produção, mas também a recorrência de determinados princípios: estruturas delgadas, curvas contínuas, madeira cuidadosamente trabalhada e atenção minuciosa aos detalhes.

 

Parte do projeto foi apresentada também na SP-Arte de 2025. A exposição representou um momento importante na revisão crítica de sua obra e ampliou o entendimento de Scapinelli como autor de um repertório muito mais extenso e complexo do que aquele tradicionalmente conhecido pelo mercado.

Legado de Giuseppe Scapinelli

Giuseppe Scapinelli pertence ao grupo de autores que ajudou a definir a identidade do mobiliário moderno produzido no Brasil, mas sua contribuição permanece profundamente individual. Sua obra revela que a modernidade não precisava ser fria, impessoal ou estritamente geométrica. Em seus projetos, funcionalidade e construção convivem com movimento, delicadeza e expressão artística.

Ao aproximar arquitetura, decoração, arte e marcenaria, Scapinelli criou móveis capazes de organizar o espaço e, ao mesmo tempo, transformá-lo. São peças cuja presença se manifesta gradualmente: primeiro pela elegância da silhueta, depois pela riqueza da madeira e, por fim, pela precisão dos detalhes.

A crescente presença de sua obra em pesquisas, exposições, publicações e coleções confirma a relevância de sua produção para a compreensão do design brasileiro do século XX. Mais do que testemunhos de um período, seus móveis conservam uma notável atualidade, resultado de uma linguagem que soube conciliar tradição e experimentação, sofisticação e simplicidade, desenho internacional e matéria brasileira.

Texto e pesquisa: Lora Ronco Galeria
Última atualização: agosto de 2026

Referências consultadas

  • CAMPOS, Sérgio. Giuseppe Scapinelli 1950: O Designer da Emoção. São Paulo: Artemobília, 2015.

  • ETEL. Giuseppe Scapinelli. Perfil biográfico, trajetória profissional e coleção de desenhos do autor.

  • Galeria Teo. Scapinelli e seus esbeltos elementos. Exposição com curadoria de Francesco Perrotta-Bosch, São Paulo, 2025.

  • Revista Projeto. “Galeria Teo abre exposição ‘Scapinelli e seus esbeltos elementos’”, 2025.

  • Casa Zalszupin / ETEL / Almeida & Dale. Pancetti e Scapinelli. Exposição com curadoria de Cristiano Raimondi, 2023.

  • Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo — MAC USP. Projetos para um cotidiano moderno no Brasil, 1920–1960. São Paulo, 2021.

  • Bossa Furniture. Giuseppe Scapinelli: perfil biográfico e obras.

  • SP-Arte. Giuseppe Scapinelli e Scapinelli e seus esbeltos elementos.

A Lora Ronco pesquisa e apresenta exemplares representativos da produção de Giuseppe Scapinelli.
As peças acima integram ou já integraram o acervo da galeria.

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