Jose Zanine Caldas
Designer, maquetista, arquiteto autodidata e mestre da madeira brasileira
José Zanine Caldas ocupa uma posição singular na história do design e da arquitetura brasileira. Autodidata, desenvolveu uma obra marcada pelo conhecimento profundo da madeira, pela experimentação construtiva e pela integração entre modernismo, artesanato e natureza. Ao longo de sua trajetória, atuou como maquetista, designer de mobiliário, arquiteto, escultor, paisagista, pesquisador e professor.
Nascido em 25 de abril de 1919, em Belmonte, no sul da Bahia, Zanine demonstrou desde cedo interesse pela construção e pelo trabalho manual. Ainda adolescente, produzia pequenos presépios utilizando caixas de papelão que pertenciam ao consultório de seu pai. Aos dezoito anos, mudou-se para São Paulo, onde trabalhou como desenhista, iniciando uma trajetória profissional construída sobretudo pela prática, pela observação e pela pesquisa independente.
Das maquetes à arquitetura moderna
No início da década de 1940, já no Rio de Janeiro, Zanine criou uma oficina especializada na execução de maquetes arquitetônicas. Seu trabalho aproximou-o diretamente de alguns dos protagonistas da arquitetura moderna brasileira, entre eles Lúcio Costa, Oscar Niemeyer e Oswaldo Bratke. A construção dessas maquetes exigia não apenas precisão técnica, mas também uma compreensão espacial e estrutural dos projetos, experiência que influenciaria profundamente sua produção posterior.
Esse contato cotidiano com a arquitetura moderna permitiu que Zanine desenvolvesse um conhecimento construtivo próprio. Embora não tivesse formação acadêmica em arquitetura, tornou-se reconhecido por sua capacidade de compreender materiais, estruturas, proporções e formas de habitar — qualidades que mais tarde transferiu para seus móveis e projetos residenciais.

O mestre da madeira do móvel moderno Brasileiro



O mestre da madeira do móvel moderno Brasileiro
algumas publicações




"Entre a precisão construtiva e a expressão natural da matéria, Zanine transformou a madeira em estrutura, mobiliário e manifesto."
Móveis Artísticos Z e o mobiliário em compensado
No final da década de 1940, Zanine fundou a Móveis Artísticos Z, empresa pioneira na produção brasileira de móveis modernos em madeira compensada. Suas peças combinavam desenho racional, curvas ergonômicas, aproveitamento eficiente do material e processos que permitiam a produção em maior escala.
O uso do compensado possibilitava recortar diferentes componentes de uma mesma chapa, reduzindo desperdícios e tornando os móveis mais acessíveis. A linha desenvolvida pela Móveis Artísticos Z aproximava os princípios do modernismo das transformações urbanas e domésticas do Brasil do pós-guerra, especialmente da expansão dos apartamentos e de um novo público consumidor.
Mesmo concebidas dentro de uma lógica industrial, essas peças já apresentavam características que permaneceriam em toda a obra de Zanine: a valorização expressiva da madeira, a clareza construtiva e a busca por uma linguagem genuinamente relacionada ao território brasileiro.
Arquitetura, ensino e experimentação
No início da década de 1960, Zanine passou a integrar o ambiente da Universidade de Brasília, onde atuou no setor de maquetes do curso de Arquitetura. Em Brasília, desenvolveu também algumas de suas primeiras experiências residenciais com uso extensivo da madeira, aprofundando sua investigação sobre sistemas construtivos adaptados ao clima e aos materiais brasileiros.
Sua arquitetura nascia do contato direto com o terreno, com a paisagem e com as características naturais de cada peça de madeira. Em vez de ocultar irregularidades, nós, fissuras e variações, Zanine incorporava essas particularidades ao projeto, permitindo que o material participasse ativamente da definição das formas.
Os móveis-denúncia
A partir do final da década de 1960, de volta à Bahia, Zanine iniciou a fase mais escultórica e reconhecida de sua produção. Utilizando grandes troncos, raízes e fragmentos de árvores descartados por processos de desmatamento, passou a criar mesas, bancos, cadeiras e poltronas de forte presença material.
Essas obras ficaram conhecidas como móveis-denúncia. O nome expressava a intenção de chamar atenção para a destruição das florestas e para o desperdício de madeiras brasileiras de grandes dimensões. Em vez de transformar completamente a matéria-prima, Zanine preservava parte das formas naturais dos troncos e raízes, convertendo cada peça em testemunho da escala e da riqueza das árvores que estavam desaparecendo.
Essa produção não representava uma rejeição absoluta da indústria, mas uma nova etapa de sua pesquisa. Se nos móveis em compensado Zanine investigou economia de material, repetição e produção em série, nos móveis-denúncia passou a enfatizar singularidade, trabalho manual e responsabilidade ambiental.
Madeira, paisagem e consciência ambiental
A preocupação de Zanine com o uso responsável da madeira atravessou também sua atuação como pesquisador. Em 1980, fundou no Rio de Janeiro o Centro de Desenvolvimento das Aplicações da Madeira — DAM, voltado ao estudo das madeiras brasileiras e de sua utilização na arquitetura e na construção civil.
Décadas antes de sustentabilidade se tornar uma questão central no design, Zanine já discutia o reaproveitamento de materiais, o impacto do desmatamento e a necessidade de construir em diálogo com o ambiente. Sua obra demonstrava que o conhecimento artesanal e a inovação moderna não precisavam ser opostos: poderiam integrar-se em uma linguagem ao mesmo tempo técnica, expressiva e profundamente brasileira.
Reconhecimento e legado
A obra de Zanine alcançou projeção internacional. Em 1990, foi apresentada em Paris na exposição “Zanine, l’architecte et la forêt”, no Musée des Arts Décoratifs, evidenciando a relação entre sua arquitetura, seus móveis e a floresta. No ano seguinte, recebeu a Medalha de Prata da Academia de Arquitetura de Paris e foi homenageado no Congresso Brasileiro de Arquitetos.
Em 2019, o centenário de seu nascimento foi celebrado por exposições e iniciativas dedicadas à preservação de sua memória. O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro apresentou a mostra “Zanine 100 anos — Forma e Resistência”, reunindo móveis e esculturas que evidenciavam a centralidade da madeira em sua obra. No mesmo período, a ETEL, em colaboração com a família do designer, retomou peças selecionadas da linha Móveis Artísticos Z.
José Zanine Caldas faleceu em Vitória, em 20 de dezembro de 2001. Seu legado permanece fundamental para a compreensão do mobiliário e da arquitetura moderna no Brasil. Entre a racionalidade do compensado e a monumentalidade dos troncos maciços, sua produção propôs diferentes maneiras de trabalhar a madeira sem apagar sua origem, sua estrutura e sua memória.
Mais do que desenvolver uma linguagem formal reconhecível, Zanine construiu uma visão de mundo: um design conectado à paisagem, à cultura construtiva brasileira e à responsabilidade sobre os recursos naturais.
Texto e pesquisa: Lora Ronco Galeria
Última atualização: agosto de 2026
Referências consultadas
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CARVALHO, Amanda Beatriz Palma de; CAVALCANTI, Lauro; SANTOS, Maria Cecília Loschiavo dos. José Zanine Caldas. São Paulo: Editora Olhares; Nova York: R & Company, 2019. 283 p. ISBN 9788562114922.
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Instituto José Zanine Caldas.
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Enciclopédia Itaú Cultural.
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ETEL.
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Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.




